Em 2017, assumi a orientação de uma aluna no Mestrado Profissional em Letras, a qual desejava desenvolver um trabalho de sala de aula, tarefa obrigatória para quem cursa um Mestrado Profissional, tendo como público estudantes em situação de privação de liberdade em uma Unidade Socioeducativa, no caso, a do Bairro Lindeia/BH, CEAD, hoje, CSL. A pesquisa intitulada “Leitura e Liberdade: o texto literário na escola socioeducativa”, de autoria de Mariotides Gomes Bezerra, teve como objetivo principal analisar o potencial de práticas pedagógicas de leitura na aprendizagem de estudantes em situação de privação de liberdade, procurando compreender como essas práticas poderiam ser significativas no processo de desenvolvimento pedagógico de cada adolescente. A defesa da dissertação ocorreu no dia 21 de fevereiro de 2019 na Faculdade de Letras e teve grande repercussão em outras unidades socioeducativas de BH e em outros ambientes, também porque a situação de adolescentes presos é praticamente invisível aos olhos da maioria da população brasileira. O trabalho tornou-se igualmente importante por dar um lugar de fala ao adolescente, silenciado por todos, revelando sua leitura da palavra e sua leitura do mundo, ressignificando sua experiência e de jovens de sua classe social. A orientação deste trabalho me propiciou conhecer uma das formas mais brutais da sociedade em lidar com sua aterrorizante desigualdade social, a do encarceramento de adolescentes negros, vítimas de políticas públicas preventivas inexistentes ou precárias. Paralelamente, a orientação do trabalho de Mariotides me introduziu em grupos que tentam pensar em soluções para os adolescentes presos. Foi dessa forma que hoje eu e Mariotides participamos do Fórum Permanente do Sistema Socioeducativo de Belo Horizonte. A socialização do trabalho de Mariotides em unidades socioeducativas, a partir da divulgação no Fórum, criou uma demanda importante: discutir com os professores que atuam em unidades socioeducativas o que significa ensinar (Língua Portuguesa) em ambientes de privação de liberdade. Como ensinar adolescentes autores de atos infracionais? O que ensinar? Que estratégias pedagógicas podem ser utilizadas?
Tendo clareza do compromisso que a UFMG tem em contribuir para a resolução de problemas concretos da realidade brasileira, com ações práticas e objetivas junto ao público definido, justifica-se este projeto de extensão - que é também de pesquisa e de ensino - visando construir, com professores de unidades socioeducativas da grande BH, alternativas pedagógicas que promovam a apropriação da leitura e da escrita e, ao mesmo tempo, favoreçam a ressignificação da vida dos adolescentes e jovens.
Objetivo geral:
-Contribuir para a formação de professores e bibliotecários em atuação em unidades socioeducativas de Belo Horizonte e região metropolitana.
Objetivos específicos:
Objetivos
- Analisar a realidade do ensino de Língua Portuguesa em unidades socioeducativas;
- Propiciar discussões atualizadas de cunho teórico-metodológico a respeito do ensino de Língua Portuguesa com os professores que atuam em unidades socioeducativas.
- Criar material apropriado para ser utilizado com jovens em situação de privação de liberdade.
- Apoiar o professor que atua em unidades socioeducativas, via de regra, ambientes violentos e de difícil trabalho.
- Possibilitar a formação continuada de professores de Língua Portuguesa em exercício em unidades socioeducativas, favorecendo a ampliação de seus conhecimentos teórico-metodológicos;
- Formar mediadores de leitura literária em unidades socioeducativas, especialmente bibliotecários;
- Contribuir para a aprendizagem efetiva do português brasileiro pelos adolescentes e jovens em situação de restrição e privação de liberdade em unidades socioeducativas.
Metodologia:
- A formação de um grupo de trabalho de professores de Língua Portuguesa e bibliotecários que atuam em unidades socioeducativas é a principal estratégia metodológica. Como a língua portuguesa é o instrumento de aprendizagem para qualquer área do conhecimento, não faremos restrições à participação de professores de outras áreas. Encontros periódicos são realizados com os integrantes, de forma a criar alternativas pedagógicas para os alunos em situação de privação de liberdade. Esses encontros ocorrem em unidades socioeducativas, em rodízio nos endereços em que atuamos. Assim, a equipe vai às unidades, em outras palavras, a UFMG vai às unidades.
Indicadores de avaliação:
Reuniões entre os membros do grupo e avaliação dos diretores das unidades balizarm as ações pedagógicas desenvolvidas.
Estudantes membros da equipe
Plano de atividades:
Plano de trabalho:
Participação nas reuniões da equipe realizadas na UFMG e nas reuniões com os professores realizadas nas unidades; organização burocrática destas reuniões (convites, atas, marcação de lugares etc.), pesquisa de material teórico, elaboração de material específico para adolescentes em situação de privação de liberdade, leitura de textos literários e posterior produção de material para trabalho em "celas de aula"; produção de pôsteres e artigos para divulgação do trabalho, além de posts para o Instagram do Projeto.
Plano de acompanhamento e avaliação:
Reuniões presenciais e virtuais (em várias plataformas) estão sendo realizadas para estudo, organização e execução de todo o trabalho.
Processo de avaliação:
O aluno bolsista será permanentemente avaliado, tendo o seguinte como critérios básicos: - assiduidade às reuniões realizadas na UFMG e às reuniões com os professores participantes nas diversas unidades socioeducativas, - pesquisa de material teórico relacionado à educação em ambientes de privação de liberdade; - elaboração de material didático-pedagógico para subsidiar as atividades a serem desenvolvidas nas salas de aula das turmas participantes, inclusive relacionados aos textos literários lidos para serem foco de atenção nas escolas; - socialização de suas descobertas; - produção de artigos científicos, pôsteres e outras formas de divulgação de suas pesquisas a partir da participação neste projetos.
Informações específicas
Articulado com política pública:
Sim
Vínculo com Ensino:
Sim
Vínculo com Pesquisa:
Sim
Informações adicionais
Informações adicionais:
A coordenação do Projeto integra a Comissão de Educação do Sistema Socioeducativo de Minas Gerais, da qual participam entidades/instituições de todas as áreas que trabalham no atendimento socioeducativo no Estado de Minas Gerais. As reuniões são periódicas, na segunda segunda-feira de cada mês.
A coordenação do Projeto foi procurada pela Defensoria Pública do Estado de Minas Gerais, visando criar um acordo formal de apoio e expansão do Leituras na Medida. A ideia é ao longo de três ou quatro anos o Leituras, subprojeto que visa à leitura de livros literários pelos adolescentes em unidades socioeducativas, estar em todo o Estado de Minas Gerais. No segundo semestre de 2024, reuniões periódicas serão realizadas para a escrita e detalhamento desse acordo.