As ocupações urbanas constituem formas legítimas de reivindicação do direito à cidade, configurando-se como identidades territorializadas que exercem a posse planejada, pacífica e informal de terrenos urbanos não utilizados, subutilizados ou sem edificação. São mantidas por famílias em situação de déficit habitacional que, diante da ausência de políticas públicas efetivas de habitação e do avanço da especulação imobiliária, constroem coletivamente moradias, espaços de convivência, sistemas artesanais de saneamento, hortas comunitárias e outras infraestruturas básicas, de acordo com suas possibilidades e necessidades.
Nesses territórios, a organização comunitária é central: os moradores se mobilizam para garantir o reconhecimento legal da ocupação e o acesso a direitos fundamentais — como moradia digna, saúde, educação, saneamento e energia elétrica. A expansão dessas ocupações está profundamente relacionada à precarização das condições de vida urbanas, ao encarecimento dos aluguéis e à falta de uma política habitacional estruturante e antiespeculativa.
Diante desse contexto, o presente projeto de extensão justifica-se pela urgência de inserção crítica e comprometida da universidade nos processos sociais e políticos que atravessam esses territórios. Propõe-se construir uma atuação conjunta entre comunidade e universidade que vá além da escuta pontual ou da oferta de serviços: trata-se de reconhecer e dialogar com os saberes e práticas de cuidado já existentes, fortalecendo-os e articulando-os com o acesso aos serviços públicos, especialmente aos dispositivos do SUS.
Com base na metodologia da Educação Popular em Saúde, o projeto valoriza o diálogo horizontal entre saberes acadêmicos e populares, entendendo a saúde não apenas como ausência de doença, mas como expressão de condições de vida e da luta por direitos. O cuidado em saúde é, aqui, concebido como processo coletivo, construído nas redes de solidariedade e resistência cotidiana, a partir da reivindicação e da conquista de direitos básicos, mas também do enfrentamento das desigualdades que atravessam o acesso aos serviços públicos.
As atividades extensionistas envolvem rodas de conversa, oficinas, visitas e vivências que possibilitam identificar, junto aos moradores, demandas de saúde amplamente compreendidas — desde necessidades urgentes de atendimento até questões estruturais como saneamento, alimentação, trabalho e habitação. Busca-se, assim, fomentar processos formativos que fortaleçam a autonomia dos moradores frente ao cuidado de si, da coletividade e do território.
Para os(as) estudantes e bolsistas envolvidos, o projeto constitui um espaço formativo fundamental, contribuindo para uma formação técnico-científica e cidadã, com base em uma perspectiva crítica da saúde. Ao promover o diálogo interdisciplinar e o engajamento direto com os territórios populares, a ação extensionista reafirma o papel social da universidade pública, comprometida com a transformação das realidades e com a construção de uma saúde verdadeiramente coletiva e emancipadora.
Objetivo geral:
O projeto busca acompanhar os moradores das ocupações Pátria Livre (Pedreira), Maria do Arraial (Centro), Eliana Silva e Paulo Freire (Barreiro), em Belo Horizonte, com o intuito de identificar, de forma participativa, as necessidades em saúde e contribuir para a construção coletiva de processos de cuidado, por meio de ações de Educação Popular em Saúde que valorizem os saberes locais, promovam o fortalecimento comunitário e ampliem o acesso aos direitos sociais e ao SUS.
Objetivos específicos:
Objetivos
Apoiar atividades de jornalismo comunitário vinculados às ocupações (canal de youtube, jornal, etc) a partir da elaboração de textos, participações especiais e registros audiovisuais das atividades.
Explorar os processos de determinação social dos processos saúde-doença nas ocupações a partir de diagnósticos participativos das necessidades em saúde e atividades de educação popular em saúde com diferentes grupos de moradores (crianças, adolescentes, idosos, etc)
Realizar intervenções em saúde horizontais que sejam construídas junto à comunidade, pautadas na atenção básica e capazes de estimular sua auto-organização para que a promoção em saúde seja permanente e construída ativamente por eles, independente da intervenção da universidade no futuro próximo
Estabelecer diálogos entre moradores das ocupações, lideranças locais e gestores e profissionais das Unidades Básicas de Saúde próximas às ocupações a partir da realização de reuniões e atividades das UBS nas ocupações, entre outras
Orientar a elaboração de políticas públicas por meio da promoção de práticas que conectam o conhecimento acadêmico às necessidades concretas das comunidades.
Mapear, de forma participativa, os principais aspectos da determinação social dos processos saúde-doença-cuidado e morte que incidem sobre os territórios das ocupações acompanhadas, considerando condições de vida como moradia, saneamento, alimentação, trabalho, violência e acesso aos serviços públicos.
Realizar atividades de educação popular em saúde com moradores das ocupações e seus entornos, valorizando saberes locais, promovendo a troca de conhecimentos e fortalecendo processos de cuidado construídos coletivamente.
Fomentar o acesso e a apropriação dos direitos sociais e do SUS pelos moradores, contribuindo para a ampliação do protagonismo comunitário na reivindicação e defesa de políticas públicas.
Promover a formação integral e humanizada dos estudantes, desenvolvendo uma atuação crítica e sensível às realidades sociais e territoriais das comunidades.
Metodologia:
Este projeto de extensão, vinculado à Liga de Saúde Coletiva da UFMG (LiASC–UFMG), tem caráter multidisciplinar e conta com a participação de estudantes e docentes de diferentes áreas da saúde, como medicina, fisioterapia, terapia ocupacional, psicologia, gestão de serviços de saúde e enfermagem. Desde sua origem, o projeto articula formação e ação a partir de três eixos temáticos fundamentais, que orientam permanentemente as atividades desenvolvidas: educação popular em saúde, ocupações urbanas e questão urbana, e a determinação social dos processos saúde-doença-cuidado e morte.
As ações são planejadas coletivamente com os moradores e lideranças das ocupações envolvidas — na Ocupação Pátria Livre, em diálogo com o Movimento de Trabalhadoras e Trabalhadores por Direitos (MTD), e nas Ocupações Maria do Arraial, Eliana Silva e Paulo Freire, com o Movimento de Luta nos Bairros, Vilas e Favelas (MLB). As atividades são realizadas tanto em grupos quanto por núcleo familiar, respeitando as dinâmicas e demandas de cada território.
Entre as ações previstas, destacam-se: a construção participativa de um diagnóstico das condições de vida e saúde; atividades de articulação com os centros de saúde da rede SUS; e diferentes ações de educação popular em saude.
O projeto adota como base metodológica a pesquisa-ação, compreendida como um processo coletivo de produção de conhecimento e intervenção transformadora. Parte do reconhecimento de que todos os saberes — acadêmicos e populares — são legítimos e fundamentais para a construção emancipatória da saúde. Dessa forma, as atividades são orientadas por escuta ativa, diálogo horizontal e valorização dos saberes de todos os sujeitos envolvidos: estudantes extensionistas (ligantes), lideranças comunitárias e moradores das ocupações. É nesse encontro que o projeto se fortalece como espaço formativo, político e ético de produção compartilhada de cuidado e de luta pelo direito à saúde e à cidade.
Indicadores de avaliação:
1. Participação dos discentes e docentes nas atividades de ensino e de extensão do projeto. Fonte: Listas de presenças.
2. Ações desenvolvidas e resultados alcançados. Fonte: Relatório de Atividades e relatos de experiência divulgados em congressos/artigos.
3. Divulgação das atividades de extensão em revistas, congressos e espaços de comunicação comunitaria para fortalecer troca de experiências e construção coletiva de conhecimento. Fonte: certificados de participação e links das divulgações.
4. Avaliação das ações de educação popular em saúde pelos moradores e lideranças. Fonte: reuniões de avaliação semestrais.
Estudantes membros da equipe
Plano de atividades:
- Reuniões periódicas com os moradores das ocupações urbanas e/ou com as lideranças das comunidades para apoiar o mapeamento das necessidades em saúde da comunidade;
- Sistematização da experiência e elaboração de trabalhos para congressos e encontros nacionais e internacionais;
- Reuniões periódicas entre os ligantes/extensionistas a fim de se avaliar os resultados parciais das ações, planejar as próximas ações e articular como será mediada a relação da comunidade com os dispositivos de saúde;
- Participação nas reuniões com os equipamentos sociais tais como os Centros de Saúde, os Centros de Referência de Assistência Social e os Centros de Convivência das Ocupações Urbanas com quem o trabalho estará sendo desenvolvido para articular as intervenções planejadas e mediar a relação com as lideranças das comunidades para facilitação das negociações;
- Registro sistemático das atividades por relatórios, entrevistas e imagens
Plano de acompanhamento e avaliação:
- Reuniões periódicas da professora orientadora com todo o grupo de extensionistas para acompanhamento e supervisão dos trabalhos tanto nas ocupações e na Faculdade de Medicina;
- Reuniões individuais com alunos que estejam responsáveis por tarefas específicas dentro do projeto para orientação e acompanhamento;
- Participação conjunta da coordenadora em visitas na comunidade;
- Disponibilização de orientação para os alunos que se interessem em desenvolver trabalhos baseados nas atividades realizadas para apresentação em eventos;
-Fornecimento, pela professora, de referências para leitura para os alunos estarem instrumentalizados para o desenvolvimento das atividade
Processo de avaliação:
A avaliação será feita através de relatório de atividades a ser desenvolvido pelo coordenador a cada semestre e acompanhamento do desempenho dos seguintes indicadores junto aos alunos:
1. Lista de presença nas reuniões e eventos. Fonte: as próprias listas de presenças
2. Relatório semestral das ações desenvolvidas pelos alunos e avaliação dos resultados alcançados Fonte: Relatório de Atividades dos alunos descrevendo sua observação participante nas ações de extensão.
3. Relatório anual do projeto de extensão apresentando principais resultados e desafios para sua continuidade. Fonte: Relatório da coordenadora do projeto
Informações específicas
Articulado com política pública:
Sim
Vínculo com Ensino:
Sim
Vínculo com Pesquisa:
Sim
Informações adicionais
Informações adicionais:
O projeto desempenha um papel fundamental na formação técnico-científica e cidadã dos bolsistas envolvidos, promovendo uma educação integral e multidisciplinar. Com a participação de alunos e professores de diversas áreas, o projeto proporciona uma vivência rica em práticas interdisciplinares e sociais.
Desde seu início, o projeto tem se centrado em três eixos temáticos cruciais: educação popular em saúde, ocupações urbanas e questão urbana, e determinação social dos processos saúde-doença. A partir desses temas, os bolsistas desenvolvem atividades que envolvem não apenas a análise e estudo, mas também a interação direta com as comunidades.
A metodologia adotada, de pesquisa-ação, fortalece a construção do conhecimento de forma colaborativa e participativa, valorizando tanto os saberes acadêmicos quanto os saberes populares das comunidades envolvidas.