O conhecimento botânico desempenha um papel crucial na manutenção das complexas teias de interação entre os seres vivos e, por conseguinte, na sustentabilidade da vida no planeta. Paradoxalmente, a presença das plantas nos múltiplos ecossistemas e no cotidiano urbano costuma ser negligenciada — fenômeno correlato à "impercepção botânica" —, o que impacta negativamente a conservação da biodiversidade vegetal.
Embora a Botânica exerça uma função essencial nas Ciências Biológicas e constitua um saber fundamental para a sociedade — com aplicações diretas na alimentação, vestuário, farmacologia e cosmética —, o último século testemunhou um declínio no prestígio de seus conteúdos no ensino básico. Esse cenário decorre, prioritariamente, de abordagens pedagógicas excessivamente formais, mnemônicas e desarticuladas das realidades cotidianas dos estudantes. Todavia, diante da atual Emergência Climática Global, a Botânica assume relevância ímpar, visto que os organismos vegetais são protagonistas na mitigação de impactos ambientais e na promoção do equilíbrio socioecológico. Sob essa lógica, a Botânica, quando aliada à Educação Ambiental Crítica, consolida-se como um campo potente para tensionar e responder às demandas socioambientais locais de forma articulada às questões globais.
Frente a esse panorama, o projeto "Construindo Olhares Botânicos" propõe o desenvolvimento de estratégias pedagógicas que aproximem jovens acadêmicos (graduandos e pós-graduandos) de estudantes da educação básica, visando à co-construção e à divulgação do conhecimento científico. A Escola Estadual Getúlio Vargas (EEGV) e o Parque Estadual Serra Verde (PESV), localizados na região norte de Belo Horizonte (MG), constituem os cenários e parceiros desta proposta. A escolha dessas instituições justifica-se pela proximidade geográfica, pela articulação de lideranças locais e, sobretudo, por estarem inseridas em um território periférico com histórico de escasso investimento público em infraestrutura ambiental, mas que abriga uma Unidade de Conservação estratégica e uma comunidade com expressivo potencial de transformação social.
Desse modo, o projeto visa mitigar o distanciamento histórico entre a universidade pública e a escola básica periférica. Por meio da mediação com a EEGV, busca-se democratizar o acesso à cultura científica mediante uma formação crítica, participativa e dialógica com os saberes locais, fomentando a preservação e a valorização socioambiental do PESV.
A nomenclatura do projeto reflete a premissa de que o saber botânico é socialmente construído, fundamentado em uma perspectiva que desmarginaliza a flora e posiciona os discentes como protagonistas do processo de ensino-aprendizagem. Nesse modelo, a aprendizagem emerge da interação social, da linguagem e da cultura, cabendo aos educadores e pesquisadores o papel de mediadores na construção de significados — tanto individuais quanto culturalmente compartilhados. O termo “olhares”, portanto, sintetiza a pluralidade de epistemologias e formas de perceber as plantas e seus habitats. Embora essa inteligibilidade seja estruturada coletivamente, ela se singulariza em cada sujeito a partir de suas vivências, percepções e condições subjetivas.
Objetivo geral:
Desenvolver junto a estudantes do ensino básico, de graduação e pós-graduandos, estratégias eficientes de aproximação com o fazer científico de pesquisadores botânicos de modo a ampliar e aprimorar neles o olhar sobre a importância das plantas e dos ambientes naturais, desenvolvendo o potencial de tornarem-se agentes multiplicadores do saber científico em seus territórios e comunidades de forma dinâmica, crítica, reflexiva e articulada a conhecimentos tradicionais e a arte.
Objetivos específicos:
Objetivos
- Montar uma coleção de lâminas de histológicas e experimentos de germinação de material da flora do PESV;
- Construir material de divulgação do desenvolvimento e funcionamento de espécies-chave localizadas no PESV;
- Divulgar os resultados do projeto na EEGV e no PESV, visando alcançar o público da escola e da comunidade;
- Elaborar um diário reflexivo coletivo sobre as práticas realizadas ao longo do projeto, o qual será periodicamente objetivo de discussão e registro em rodas de conversa;
- Apresentar os resultados do projeto em eventos acadêmicos e científicos regionais e nacionais.
- Realizar oficinas interativas (com modelos 3D, arte botânica, jogos, experimentos didáticos, etc) em escolas parceiras para aproximar jovens estudantes do método científico tendo a diversidade morfológica da flora brasileira e seu papel crucial na manutenção das formas de vida como objeto de estudo.
- Realizar reuniões formativas em temas como: cartografia, inclusão digital em ferramentas do pacote office e semelhantes; modelagem 3D para impressão de estruturas botânicos, etc.
- Produzir material didático e paradidático facilitador do aprendizado sobre plantas em parceria com discentes da licenciatura e educandos do ensino médio.
- Montar uma coleção de exsicatas alusiva a flora do Parque Estadual Serra Verde (PESV) que servirá de base para o estudo Histórico da Flora brasiliensis;
- Montar kit de material didático-científico para a Escola Estadual Getúlio Vargas (EEGV) e o Parque Estadual Serra Verde (PESV) incluindo, lâminas histológicas, exsicatas, modelos didáticos de organismos vegetais e jogos didáticos para o ensino de botânica, todos com base na flora do PESV.
- Realizar visitas aos institutos, faculdades e escolas da UFMG com objetivo de conhecer os laboratórios, projetos e atividades realizadas por estes, com intuito de permitir aos secundaristas conhecer estes espaços e seus integrantes a fim de estimular a continuidade dos estudos e conhecerem as possibilidades do universo acadêmico.
- Realizar reuniões de formação em ensino de biologia, pesquisa em educação, história e filosofia da ciência com os integrantes do projeto em nível de graduação (sobretudo de licenciatura em Ciências Biológicas) e pós-graduação (Biologia Vegetal) com objetivo de obterem formação teórico-prática para atuação junto aos estudantes da educação básica.
- Produzir artigos científicos na área de Ensino de Ciências/Educação/Extensão relatando e analisando as experiências e vivências no projeto e como elas influenciaram a formação dos integrantes e demais envolvido no projeto.
Realizar o diálogo entre a botânica e a arte promovendo a interdisciplinaridade entre as áreas, por meio da formação em oficinas de cordel e xilogravura e a divulgação da flora do PESV e do Campo Rupestre através dessas expressões da cultura popular.
Integrar o cordel e a xilogravura as oficinas interativas realizadas nas escolas, feiras e locais possíveis de educação não formal e divulgação científica.
Realizar o diálogo entre as questões socioambientais com a história, a partir da produção de um documentário sobre a criação e os impactos do PESV sobre a população no se entorno.
Produzir de um site para a divulgação das plantas estudadas do PESV, como um herbário virtual, para divulgação da flora local.
Divulgar a flora brasileira por meio da arte japonesa do origami, por meio de oficinas aliadas a contação de histórias.
Realizar uma Oficina de tirinhas com convidados, a fim de produzir produtos de divulgação científica dentro da botânica na germinação.
Metodologia:
A metodologia do projeto pode ser organizada em quatro eixos:
1 - Formação científica
Os estudantes do ensino médio realizam pesquisas sobre a flora do Parque Estadual Serra Verde. São realizadas coletas mensais de espécies em estado reprodutivo, que em laboratório da UFMG são identificados por técnicos do Herbário BHCB e são produzidas exsicatas. Essas espécies são investigadas, sobretudo do ponto de vista anatômico pelos alunos do ensino médio sob supervisão de professores da escola, pós-graduandos em biologia vegetal e graduandos de ciências biológicas.
A construção de conhecimentos para além do campo e da bancada é realizada por meio de rodas de conversa, apresentações de seminários, leitura e discussão de textos científicos. Os resultados são apresentados em eventos científicos como a Semana do Conhecimento da UFMG ou nos Workshops do PPG de Biologia Vegetal.
2 – Produção de materiais
A partir dos conhecimentos produzidos sobre a flora do PESV são produzidos materiais didáticos e de divulgação científica relacionadas a botânica e educação ambiental. Este materiais incluem jogos, podcasts, modelos impressos em 3d, cordéis, xilogravuras entre outros meio de expressar os conhecimentos de uma maneira dinâmica que seja articulada à realidade dos estudantes do ensino médio e sua comunidade. Essa produção ocorre por meio da mediação pedagógica realizadas pelo pós-graduandos e graduandos.
3 – Divulgação científica
Os conhecimentos científicos e materiais produzidos são divulgados em site próprio e nas redes sociais. De modo, presencial são realizadas Mostras com os produtos e conhecimentos construídos em eventos escolares, feiras científicas ou eventos acadêmicos. Nesses momentos os estudantes do ensino médio atuam como mediadores do conhecimento, com o público do evento sob a supervisão dos pós-graduandos e graduandos do projeto. Esse é um momento chave do projeto pois é quando há multiplicação dos conhecimentos dos alunos do ensino médio com sua comunidade e para além.
4 – Formação de professores e avaliação da mediação pedagógica
Para que o processo de mediação pedagógica realizado pelos pós-graduandos e graduandos ocorra de maneira significativa para o aprendizado dos alunos do ensino médio, são realizadas reuniões semanais de formação nas quais são discutidos textos de educação em ciências e educação ambiental. Além disso, nesses encontros há a avaliação dos processos educativos correntes e planejamentos de ações futuras.
Assim, os estudantes de pós-graduação, junto aos orientadores e coordenadores atuarão como formadores científicos e pedagógicos dos graduandos, promovendo acompanhamento metodológico, orientação de produção científica e supervisão das ações extensionistas. Os graduandos atuarão como mediadores junto à educação básica, realizando oficinas, construção de materiais didáticos e sistematização das atividades.
Os estudantes da educação básica atuam como multiplicadores do conhecimento em múltiplos eventos.
Indicadores de avaliação:
Produção de 30-50 exsicatas e 50-100 lâminas histológicas com material de pelo menos 3 espécies-chave alusivas a flora do PESV;
Produção de protocolos e registro de condições boas para germinação das diferentes espécies;
Produção de material didático (3 livretos) e de divulgação (3 campanhas) sobre as espécies-chave nas redes sociais do laboratório de anatomia vegetal da UFMG, da EEGV e do PESV;
Produção de diários botânicos autorais por cada secundarista;
Participação ativa em eventos científicos e de Educação Ambiental;
Minicursos e ações nas escolas avaliados com as seguintes perguntas: Quais foram os pontos positivos da atividade? E quais pontos podem melhorar?
Questionário online por meio de QR-Code com perguntas avaliando aspectos quantitativos e qualitativos das atividades das oficinas, feiras e minicursos;
Avaliação do que foi aprendido, o que encantou ou desagradou, utilizando a escala Likert.
Estudantes membros da equipe
Plano de atividades:
1. Formação teórico-prática com estudantes de graduação e pós-graduação para as devidas mediações pedagógicas.
2. Expedições a campo (PESV) para coleta de material em flor e/ou fruto.
3. Montagem e fotografia de exsicatas devidamente catalogadas;
4. Coleta e fixação de amostras (folhas, flores, frutos e sementes) para estudos estruturais em laboratório;
5. Produção de laminário e experimentos de germinação e produção de plântulas;
6. Discussão em formato de roda de conversa ou seminário sobre os conhecimentos aprendidos e produzidos ao longo das experiências.
7. Produção de material de divulgação em mídias digitais e impressas a ser apresentado na escola, no PESV e nos eventos científicos;
8. Apresentação de resultados do projeto em eventos acadêmicos e científicos regionais e nacionais.
Plano de acompanhamento e avaliação:
O projeto é uma Pesquisa-Ação que integra lideranças e participantes na busca de soluções pedagógicas para educação botânica e ambiental. A avaliação dos secundaristas ocorre por meio de rodas de conversa quinzenais e Diários Botânicos, analisados qualitativamente por meio da Análise de Conteúdo. As mostras de divulgação são avaliadas por meio de formulários online. Alinhamentos pedagógicos e demandas são discutidos em reuniões semanais entre graduandos, pós-graduandos, orientadores e coordenação.
Indicadores de avaliação:
Produção Científica e Didática: Confecção de 30-50 exsicatas e 50-100 lâminas histológicas de espécies-chave da flora do PESV. Protocolos de germinação, 3 livretos didáticos, divulgação digital nas redes da UFMG, EEGV e PESV, e diários botânicos autorais.
Métricas de Alcance e Engajamento: Monitoramento do número de oficinas realizadas, total de estudantes atendidos e volume de materiais produzidos; engajamento e número de acessos aos produtos digitais nas redes sociais, e taxa de permanência dos alunos no projeto.
Inclusão e Impacto Social: Avaliação do perfil dos participantes (participação feminina e de pessoas negras e indígenas); estímulo e interesse dos jovens no ingresso à universidade.
Avaliação de Feedback: Questionários pós-atividades, oficinas, feiras e minicursos para coleta de dados qualitativos e quantitativos (análise via escala Likert).
Informações específicas
Articulado com política pública:
Sim
Vínculo com Ensino:
Sim
Vínculo com Pesquisa:
Sim
Informações adicionais
Informações adicionais:
O projeto Construindo Olhares Botânicos está diretamente articulado à Política Nacional de Educação Ambiental (PNEA), instituída pela Lei nº 9.795/1999, ao promover processos educativos formais e não formais voltados à construção coletiva de conhecimentos, valores, atitudes e práticas socioambientais comprometidas com a conservação da biodiversidade e a sustentabilidade. A proposta dialoga com os princípios da PNEA ao desenvolver ações de caráter humanista, democrático, participativo e interdisciplinar, integrando universidade, escola pública e unidade de conservação em atividades de ensino, pesquisa e extensão.