O bordado é uma arte milenar encontrada praticamente em todas as culturas ao redor do mundo. Refere-se a um trabalho manual onde são utilizadas agulhas, tecidos, fios compostos por diversos tipos de materiais, fitas, pedras, entre outros ornamentos, que compõe formatos diversos. Atualmente, o bordado passa por inúmeras transformações, muitas vezes registradas por meio de adjetivos que qualificam algumas destas mudanças, expressando movimentos de reinvenção e construção de novos sentidos, tais como bordado livre e bordado contemporâneo. É neste contexto que emerge o projeto de extensão aqui apresentado. O coletivo "Linhas da FaE" advém de uma experiência online construída durante a pandemia de COVID-19, em 2021, quando um grupo de docentes e discentes da Faculdade de Educação (FaE/UFMG), junto com público externo, produziu um "Dicionário bordado" em homenagem ao centenário de Paulo Freire, posteriormente transformado em um livro virtual e em uma exposição presencial no espaço ArtEducação da FaE/UFMG, intitulados "Entre a linha e a palavra: bordados para Paulo Freire". Com o retorno das atividades presenciais em 2022, a mobilização do grupo ganhou força e docentes da referida Faculdade se organizaram para constituir o Coletivo, que visa à defesa da Educação pública em um cenário de ataque aos direitos da população brasileira. Uma das nossas inspirações para a criação do projeto reside no trabalho das arpilleras da resistência chilena, expressão estética e política do bordado. A Arpillera é uma técnica têxtil chilena cujas raízes situam-se em uma antiga tradição popular criada por um grupo de mulheres bordadeiras de uma localidade denominada Isla Negra, na costa central chilena. Consiste em contar histórias através do bordado. A folclorista Violeta Parra foi quem ajudou na difusão desse trabalho artesanal a partir de meados da década de 1960. Para ela, tal bordado é uma “uma linguagem para poder transmitir histórias, sonhos e conceitos”. Durante a ditadura militar chilena (1973-1990), muitas mulheres que tiveram seus familiares torturados, sequestrados e/ou desaparecidos passaram a confeccionar bordados de maneira coletiva, em igrejas, associações etc, narrando suas histórias de injustiça, dor e, também, de muita resistência. Em geral, as obras tinham como base recortes de um saco de arpillera (juta, em espanhol), por meio dos quais eram feitas denúncias de diversas situações de opressão, subalternização, violência e abandono, constituindo expressões da tenacidade com que levavam adiante a luta pela verdade e pela justiça. No período supramencionado, as arpilleras chilenas circularam em diferentes cantos do mundo, levando consigo as indignações e esperanças de uma população que passava a lutar contra o projeto neoliberal chileno levado à cabo pelo governo ditatorial, então pioneiro em terras latino-americanas. Ainda como inspiração para nosso projeto de extensão, destacamos a experiência de Coletivos criados em diferentes cidades do Brasil, conectados em um grande novelo, cuja iniciativa primeira é a do Coletivo "Linhas do Horizonte", do município de Belo Horizonte/Minas Gerais. O Coletivo, fundado no ano de 2016, caracteriza-se como suprapartidário e de esquerda. Por meio do chamado “bordado político”, atua na defesa de diferentes causas políticas e sociais e na defesa da democracia. Inspirados em tal iniciativa, outros grupos foram criados em diferentes regiões do Brasil, tais como: "Linhas do Rio", "Linhas de Santos", "Linhas do Mar", "Linhas de Porto Alegre", "Linhas da resistência". Com foco na defesa ambiental, o projeto “Linhas das montanhas – bordando águas” também ganha destaque. Dentre tantas possibilidades advindas da prática do bordado, salientamos o exercício da alteridade, que encontra lastro no que Luciana Brandão (2010) chamou de “Pedagogia da dádiva”: a possibilidade e a boniteza de compartilhar o que se sabe e aprender o que não se sabe; em situações marcadas por trocas e reciprocidades.
Objetivo geral:
Constituir um coletivo progressista articulado em torno da defesa da Educação Pública como direito de todas as pessoas e dever do estado, cujas ações giram em torno do bordado livre como forma de expressão poética e política de suas pautas e demandas.
Objetivos específicos:
Objetivos
Pautar o direito à Educação pública, gratuita, de qualidade e socialmente referenciada, em todos os níveis e modalidades, bem como seus desafios e possibilidades de superação no contexto do Sul global, como eixo balizador da prática do bordado livre; Publicizar, por meio da divulgação dos materiais produzidos pelo coletivo, pautas e demandas relativas à Educação pública no contexto do Sul global; Fomentar a articulação das ações desenvolvidas pelo grupo com outros sujeitos (individuais e/ou coletivos), organizados em torno do bordado de resistência, na luta por direitos (à Educação, à Saúde, à Terra, ao Trabalho etc); Fomentar trocas de experiências e saberes, além da produção e divulgação de conhecimento entre participantes do coletivo (inclusive em diálogo com outros sujeitos individuais e coletivos), sobre a prática do bordado/das artes manuais e têxteis e suas relações com: questões de gênero e gerações; história das mulheres; os saberes e práticas de povos tradicionais; as práticas de autocuidado e o autoconhecimento; relação entre bordado e literatura; o bordado no contexto das práticas educativas (escolares e não escolares); experiência de tempo e os trabalhos manuais na contemporaneidade, entre outros; Promover ações de formação que tenham, na prática do bordado livre, um eixo articulador da produção e circulação de narrativas sobre os temas abordados pelo grupo.
Metodologia:
A metodologia de trabalho se pauta na Educação Popular, na perspectiva freiriana. Neste sentido, todas as pessoas interessadas em compor o grupo são compreendidas enquanto sujeitos de experiências e de saberes, capazes de lidar com o bordado livre como forma de expressão poética e política para a qual não são demandados, como pré-requisito, “ser bordadeira” ou “bordadeiro” e/ou saber técnicas, simples ou não, de bordado. Buscamos desenvolver uma metodologia de trabalho que respeite experiências e saberes de cada participante. Por ter como base a Educação Popular, consideramos que o bordado é um espaço/tempo educativo de experiência e resistência, por isso, priorizamos a construção coletiva do aprendizado do bordado e também das nossas ações. Todavia, isso não inviabiliza a construção individual dos bordados, a qual pode contribuir significativamente para que os sujeitos desenvolvam suas criatividades e experimentação. Quanto à temática, prioriza-se o desenvolvimento de ações articuladas em torno da defesa da Educação Pública como direito de todas as pessoas e dever do estado.
Indicadores de avaliação:
O projeto será avaliado permanentemente por meio da observação e da auto-avaliação de participantes, incluindo a equipe de coordenação e orientação. Serão realizadas reuniões periódicas do grupo para planejamento, desenvolvimento e avaliação das ações. É importante mencionar, também, que buscaremos escutar o público externo acerca das produções desenvolvidas, especialmente no que tange às reverberações dos bordados como forma de expressão poética e política de defesa da educação pública. Além disso, construiremos alguns indicadores, tais como: alcance da divulgação das ações e produções do Coletivo, interna e externamente, comentários das mídias digitais acerca dos das ações e produções realizadas, produções de bordados para ações específicas, tal como criado para o Centenário de Paulo Freire.
Estudantes membros da equipe
Plano de atividades:
Descrição das atividades:
- Participar de reuniões periódicas do grupo, nos formatos presencial e/ou online, e da articulação poética e política do Coletivo de bordado livre;
- Realizar estudos diversos sobre as temáticas abordadas pelo grupo;
- Operacionalizar tecnicamente a organização do material em Google Drive;
- Colaborar na produção de peças de divulgação de ações promovidas pelo Coletivo em meios sociais, científicos e artísticos;
- Participar de eventos internos e externos à universidade relacionados à proposta do Coletivo.
Plano de acompanhamento e avaliação:
O acompanhamento/orientação de estudantes participantes será realizada de maneira periódica e processual por membros da equipe de coordenação.
Processo de avaliação:
O acompanhamento/orientação de estudantes vinculados ao projeto será realizado periodicamente por membros da coordenação da equipe, por meio de reuniões, observação das ações desenvolvidas, auto-avaliação, por meio de reuniões, observação das ações desenvolvidas, auto-avaliação, articulando ações desenvolvidas com sua trajetória pessoal e suas interações com o Coletivo. A publicação/divulgação das atividades e relatos de experiência orais e/ou escritos também contribuirão para o processo de avaliativo.
Informações específicas
Articulado com política pública:
Não
Vínculo com Ensino:
Não
Vínculo com Pesquisa:
Não
Informações adicionais
Informações adicionais:
Salientamos que o Coletivo vem recebendo demandas de realização de atividades diversas, com destaque para Rodas de Bordados, oferta e participação em oficinas e minicursos, seja de grupos e coletivos internos e externos à UFMG, tal como registrado nos resultados das ações. Avaliamos que as atividades ofertadas pelo Linhas da FaE possuem um caráter educativo amplo e bastante potente, abarcando a dimensão técnica, estética e política nos processos formativos do público envolvido. Isto tem sido paulatinamente reconhecido pelo público interno e externo à universidade. Tendo isto em vista, salientamos que o apoio institucional se mostra fundamental, seja para aquisição de materiais diversos, seja no suporte por meio de bolsistas de extensão. É neste sentido que justificamos o pedido de apoio nos diversos Editais de Fomento, particularmente da PROEX (pedido de dois bolsistas, Edital para o ano de 2026), dado o potencial de expansão do projeto para a comunidade interna e externa à UFMG.