A população em situação de rua (PSR) representa um dos grupos mais vulneráveis e desfavorecidos em nossa sociedade. Esse fenômeno vem se agravando devido a mudanças econômicas, políticas e sociais que se fazem presentes nas grandes metrópoles a nível mundial1. A crise da Covid-19 afetou o mundo de inúmeras formas e impactou na redução maciça da atividade econômica nacional e internacional de diversos países como uma de suas consequências sociais mais aparentes, impulsionando também muitos indivíduos a viverem em situação de rua2.
Em 2009, foi instituído pelo Decreto nº 7.053, a Política Nacional para a PSR, que define essa população como um grupo populacional heterogêneo que possui em comum a pobreza extrema, os vínculos familiares interrompidos ou fragilizados e inexistência de moradia convencional regular, que utiliza os logradouros públicos e áreas degradadas como espaço de moradia e de sustento, de forma temporária ou permanente, bem como as unidades de acolhimento para pernoite temporário ou como moradia provisória3.
A PSR fica em áreas próximas a restaurantes e centros de distribuição de alimentos como forma de obtenção de sobras, como uma maneira temporária de sanar a fome. Assim, sua base alimentar é considerada pobre em proteínas, deficiente em minerais e vitaminas, e tende a uma dieta rica em carboidratos, por serem alimentos mais baratos e acessíveis. O açúcar utilizado com frequência torna um dos fatores para instalação e desenvolvimento da cárie dentária4.
Para agravar ainda mais, o acesso restrito da PSR e pouca renda impossibilita a aquisição de condições básicas para sobrevivência, dentre eles objetos fundamentais para os hábitos de saúde e higiene. Assim, um dos problemas de saúde mais recorrentes na PSR, estão os relacionados à saúde bucal (SB), que é precária nesta população5. A literatura científica sobre a condição de saúde bucal da PSR no Brasil é escassa6,7.
A partir de 2023, a saúde bucal passa a ser um direito de todos os brasileiros garantido por lei. O ato reconhece a importância do acesso ao atendimento odontológico no SUS com o cuidado integral da população brasileira.
O Manual do Cuidado da PSR8 traz que a saúde bucal é uma das prioridades dessa população, ressaltando a necessidade de existir uma postura de compreensão e apoio, para que seja possível o acesso aos cuidados necessários. O profissional deve estar preparado para enfrentar as dificuldades particulares do atendimento a PSR, como atendimento ao usuário sob efeito de álcool ou outras drogas, más condições de higiene bucal, dificuldade de comparecer a consulta, imediatismo na resolução de seus problemas e/ou abandono do tratamento. A atenção odontológica deve ir além do atendimento clínico, podendo evoluir à construção de vínculo e o cirurgião-dentista conseguem, durante a escuta qualificada, obter informações relevantes que irão contribuir na elaboração do plano terapêutico do usuário e sua atenção à saúde8.
O profissional de saúde bucal deve construir o vínculo com o resgate da autoestima e reinserção social, salientando que é um dever ético por parte de profissionais da saúde assistir esta população, em compromisso com a melhoria da saúde da população do País9. A compreensão da abordagem e atenção da PSR pode contribuir para o planejamento de ações para promoção, prevenção e tratamento da SB, para um melhor atendimento a essas pessoas, visando reforçar os princípios da universalidade, equidade e atendimento integral no âmbito do Sistema Único de Saúde (SUS).
Para a resolutividade de problemas complexos como a atenção em saúde a PSR, é necessário o engajamento de várias profissões da saúde. O SUS se dá de forma interprofissional, sendo fundamental que os estudantes da área da saúde sejam formados e reconheçam a importância do trabalho em equipe de forma colaborativa.
Objetivo geral:
Desenvolver ações para a atenção à saúde bucal e sua melhoria, garantindo seu direito a Saúde bucal, aperfeiçoamento da assistência e promoção de saúde para a PSR.
Objetivos específicos:
Objetivos
Proporcionar ao estudante conhecimento sobre atendimento em SB da PSR
Proporcionar ao estudante de Odontologia o aprendizado interprofissional e prática colaborativa com a equipe de estudantes e docente em parcerias com profissionais do Centro Pop e projetos de extensão da UFMG
Proporcionar ao aluno oportunidade de conhecer o trabalho no Centro de Referência Especializado para PSR (Centro POP)
Identificar e caracterizar PSR que frequentam o Centro de Referência Especializado para PSR (Centro POP) de Belo Horizonte-MG
Realizar levantamento de necessidades das condições bucais da PSR para posterior atendimento odontológico
Realizar ações coletivas educativas em saúde com temas voltados para a PSR
Elaborar e divulgar materiais educativos para promoção de saúde a PSR
Socializar os materiais resultados das oficinas e criados pelos participantes
Realizar a atenção primária à saúde bucal da PSR na Faculdade de Odontologia
Efetivar integração ensino-serviço
Contribuir para a realização de ações de mobilização e controle social em torno da Política Nacional para a PSR com vistas à sua inclusão
Proporcionar ao estudante oportunidade de realizar pesquisa e desenvolver relatos de experiências do projeto e apresentá-los em congressos e reuniões científicas
Realizar ações de educação permanente com os trabalhadores que atendem a PSR
Fortalecer e desenvolver ações para a garantia do direito a saúde bucal da PSR
Aperfeiçoamento de recursos humanos para a atenção a PSR
Criar e gerenciar um perfil no Instagram dedicado à divulgação científica, tornando pesquisas acadêmicas mais acessíveis ao público por meio de linguagem clara e visual atrativo, divulgar ações do projeto e criar um canal de omunicação com usuários, pesquisadores, estudantes e interessados no tema
Metodologia:
A metodologia do projeto fundamenta-se em uma abordagem interinstitucional e interprofissional, articulando a Faculdade de Odontologia com a rede socioassistencial e saúde de Belo Horizonte, especialmente o Centro de Referência Especializado para População em Situação de Rua (Centro POP Lagoinha), além de outros parceiros como Aluguel Solidário, INAPER, Centros POP das regionais Centro-Sul e Leste, incluindo serviços voltados a mulheres, gestantes e puérperas. Essa articulação promove a integração ensino–serviço–comunidade e orienta as ações a partir das demandas concretas da população em situação de rua (PSR), com foco na equidade e integralidade do cuidado.
O projeto desenvolve continuamente diagnóstico participativo, vinculado à pesquisa, baseado em escuta qualificada, observação e construção compartilhada de instrumentos com usuários e profissionais. Esse processo gera um diagnóstico situacional que orienta planejamento, definição de prioridades e construção de estratégias de cuidado mais responsivas. Destaca-se o protagonismo dos usuários, que participam da identificação de necessidades, elaboração de materiais educativos e avaliação das ações.
Nos Centros POP, são realizadas oficinas e rodas de conversa com metodologias participativas, em consonância com a educação popular em saúde, abordando temas definidos com a PSR, fortalecendo vínculos e promovendo autonomia, além de favorecer a interprofissionalidade por meio da integração com outros projetos de extensão.
A atenção à saúde bucal é organizada de forma articulada entre território e universidade. Casos de menor complexidade são atendidos semanalmente no Centro POP (quarta-feira), enquanto demandas mais complexas são encaminhadas à Faculdade de Odontologia nas terças, com apoio logístico. Estudantes, supervisionados por docentes e pós-graduandos, realizam acolhimento, planejamento terapêutico e atendimentos. Prioriza-se a longitudinalidade, o vínculo, a humanização e a redução de barreiras, com apoio de serviços como radiologia.
A dimensão formativa ocorre por meio de metodologias ativas, em atividades teóricas e práticas na universidade e nos cenários de prática, abordando atenção à PSR, políticas públicas, trabalho em rede e educação interprofissional. Destaca-se a oferta da disciplina interprofissional de extensão transversal - INU110 Educação interprofissional para o cuidado da população em situação de rua, e em processo de institucionalização, ampliando o impacto formativo.
O projeto também produz e dissemina conhecimento, com desenvolvimento de instrumentos, guias e protocolos, além de ações de popularização da ciência e mobilização social em redes digitais com postagens 3 vezes na semana.
A gestão é compartilhada entre docentes, discentes e parceiros, com atuação relevante de pós-graduandos na supervisão. Há monitoramento contínuo por indicadores e avaliação formativa, com participação ativa de PSR em todas as etapas.
Indicadores de avaliação:
A avaliação do projeto é contínua, sistemática, contemplando dimensões formativas, assistenciais, gestão e impacto social. Estudantes de graduação e pós-graduação são avaliados semestralmente por meio de instrumentos padronizados e registro de carga horária, permitindo analisar o alcance das metas propostas e desempenho discente. As práticas clínicas são monitoradas quanto à resolutividade, integralidade do cuidado e adequação dos planos terapêuticos. Na disciplina vinculada ao projeto, a avaliação é formativa e processual, baseada em participação, reflexão crítica e desenvolvimento de competências interprofissionais.
A equipe de saúde e socioassistencial participa por meio de rodas de conversa e devolutivas qualitativas, avaliando a pertinência das ações e a articulação intersetorial. O monitoramento do impacto assistencial e epidemiológico é realizado por meio de indicadores quantitativos e qualitativos, que orientam o replanejamento. A participação social é ativa na avaliações.
Estudantes membros da equipe
Plano de atividades:
As atividades do projeto são realizadas semanalmente de forma articulada entre o território e a universidade, com ações no Centro POP às quartas-feiras à tarde, atendimentos na Faculdade de Odontologia às terças-feiras à tarde e a disciplina na segunda-manhã. Além disso, ações de parceiros acontecem em outros dias, como quartas na saúde e nos sábados. No Centro POP, os estudantes desenvolvem oficinas educativas, levantamento das condições de saúde bucal e atendimentos de menor complexidade, com participação ativa de usuários, profissionais e equipe do projeto.
Os casos que demandam maior complexidade são previamente organizados e encaminhados para atendimento na Faculdade. Os atendimentos são realizados por estudantes a partir do 6º período, com apoio de discentes de períodos iniciais, sob supervisão de docentes e pós-graduandos.
O projeto inclui ações interprofissionais com estudantes de diferentes cursos da saúde e atividades formativas vinculadas à disciplina interprofissional, realizadas também no Centro POP. Os pós-graduandos atuam na supervisão, discussão de casos, atividades acadêmicas e desenvolvimento de pesquisas, contribuindo para a qualificação das ações e integração entre ensino, pesquisa e extensão.
Plano de acompanhamento e avaliação:
As atividades dos estudantes são acompanhadas diretamente pela coordenação, docentes orientadores e pós-graduandos, garantindo supervisão contínua e qualificação das ações. Os discentes devem cumprir o plano de atividades, envolvendo-se de forma ativa com profissionais dos serviços parceiros e estudantes de diferentes áreas, fortalecendo a integração ensino–serviço e interprofissionalidade. A orientação busca articular, de forma integrada,ações educativas, atenção em saúde bucal e formação acadêmica/social/humana dos estudantes. A avaliação dos discentes de graduação, bolsistas e pós-graduandos ocorre de forma processual, considerando o cumprimento das atividades (participação nas ações educativas e clínicas), trabalho em equipe e envolvimento com serviços e com outras áreas profissionais, além da participação na produção e apresentação de resultados em eventos científicos. O desempenho dos bolsistas é acompanhado continuamente, podendo haver desligamento em casos de não cumprimento das atividades. As ações educativas são avaliadas periodicamente pelos próprios participantes, considerando sua adequação, formato e potencial de impacto. A disciplina de extensão adota avaliação formativa e processual, centrada na participação e no desenvolvimento de competências. O projeto e disciplina são avaliados por todos os envolvidos, possibilitando aprimoramentos contínuos a cada semestre.
Informações específicas
Articulado com política pública:
Sim
Vínculo com Ensino:
Sim
Vínculo com Pesquisa:
Sim
Informações adicionais
Informações adicionais:
A execução das múltiplas ações do projeto de ensino-pesquisa e extensão, desenvolvidas em diferentes cenários (território, serviços parceiros e faculdade) só é viável graças ao suporte das bolsas de extensão destinadas à graduação e à pós-graduação.
O projeto se volta a uma população em situação de elevada vulnerabilidade social, historicamente marcada por barreiras de acesso e carência de ações contínuas e integrais em saúde, especialmente em saúde bucal. Nesse contexto, a atuação extensionista torna-se relevante, ao promover cuidado qualificado, humanizado e articulado em rede, contribuindo para a redução de iniquidades.Assim, as bolsas não apenas viabilizam operacionalmente o projeto, mas potencializam seu impacto social e formativo, assegurando regularidade, qualidade das ações e sustentabilidade da proposta diante da complexidade do cuidado à população atendida.
Importante destacar o corpo docente interdisciplinar e interprofissional para o gerenciamento das ações do projeto.